É noite. As persianas caiadas e caídas não me deixam transparecer o ar gélido lá de fora. Cansa-me a vista. Os músculos prendem-se, tento emergir. Chamas-me. Não ouço. Fico a sensação que te falto e a luz ofusca-me metade do rosto vincado.

O som trémulo, mas consistente de um comboio agita as vidraças, estilhaçando-as em infíndos pedaços. Agito-me debaixo dos cobertores, implorando algo não tão ofuscante. A mão, a medo foca-se em passear-se pelos cabelos crespos e espigados, cor-de-mel que emitem uma aura desfocada de algo omnipresente. Estás aqui, sinto-te. Resguardas-te no solo húmido e ténue.
Também eu me sinto débil, semicerrando as pálpebras e com expressão mortiça. Amparas-me, o peso dói-te. Deixas-me a contas com a lei da gravidade. Embato violentamente no chão. Procuras um recanto onde te tornes visivelmente exposta e eu, assolado, espezinhado e contorcido emirjo...


É de manhã. Sento-me e escuto. Mas estando aqui, sinto-me distante e sonhador, supérfluo de tudo. Desperta-me e inquieta-me a minha colega de carteira. Chega ligeiramente atrasada. Entra. Pede desculpa. A raiz preta, húmida dos seus cabelos tingidos de loiro faz-se notar. Numa respiração ofegante senta-se. Dirige-se a mim. Estou distante. Questiono-me como aguentarei aqui. Pregado. As paredes descascam o verde da tinta e são visíveis fendas no cinzento betão.
Cerca de 30 escutam. Mas pelo menos um não.

A manhã impôs a sua magnificência , o frio não tem lâminas, mas também em mim vai abrindo algumas frestas.

Estou noutro local. No mesmo lugar. Vejo-os "sucumbir" aquela voz fina e aguda que por vezes chega a instalar-se nos meus ouvidos.
Olho para fora, uma densa e majestosa pérola da natureza, abre os seus intermináveis braços para mim, como que a pedir um aconchego.
É como se retirassem uma verdadeira pérola da sua concha matriarca e a colocassem em cima de um bloco cimentado. Não havia uma coesão estética implementada. Não há.

Vejo ganância e inveja. Cabeça baixa. Olhar decrescente. Raiva auto-estética.
Vejo saturação. Mão nas faces. Suspiros ínfindos. Desejos contra o tempo.
Vejo obrigação. Porque sim.

Olho incessantemente a campainha. O sol transparece a sua sombra tépida contra a cal. Uma silhueta.
Toca. Uma manada de alvoroço cai como chuva e a banalidade volta a bradar aos céus.


Estou sentado. COmeço a cansar-me disto. A dormência pesa. O sol entrincheira-se lá no cume e, ainda morno trespassa a janela da sala.
Sinto-me embebecido por tal luminosidade e incandescência. Oscilo entre mim.

Agrupados num só, os ruidosos óciosos, de forma implacável cultivam a semente imatura da adolescência. As lamúrias noveleiras ou os transtornos dos seus pseudónimos, são o "santo-graal" dos diálogos.
Criados os estereótipos, resta-me abdicar de tais futilidades. Imagino-me...mas estou aqui.
O nexo perde o sentido, e o chilrear "passaril" soa-me a metrópole desgastada.

Flutuo ao longo da sala e nínguem o denota. A gravidade retira-me a alma e, espalha-a ao calor terno do Sol e do escasso vento primaveril.



É noite. Interrogo-me porque estará um dia dividido em tantas partes. Também eu me sinto repartido e translúcido. Inodoro e opaco. Oprimido e resguardado.
A cabeça tomba para a esquerda, a consciência pressiona a direita. Um peso frouxo queda no meio de ambos.

A ânsia desesperada aterra e finalmente escolhe uma das opções...

2 comments:

  1. escreveste isso em filosofia?

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  2. Anonymous00:25

    Existe uma diferença entre talento e paixão.
    O primeiro cresce; educa-se e desenvolve-se, porém a paixão vive intrínseca ao que a sente.

    O ideal seria coexistirem, mas cada um exige demasiado do homem no qual existe. Ambos são arte em bruto, contudo a maior falha do talento é ofuscar a paixão, o suor do jovem poeta.
    O que falta em talento e genialidade compensa com paixão desmedida pela letra.

    A música e a palavra criam uma coreografia. (apaixonei-me pela canção)

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