Dentro de instantes e de forma subtil e ligeira, todos cairão perante a inércia da noite. Todos eles sem excepção se tornarão apáticos debaixo dos seus lençóis, com a cabeça quase a transpor a almofada e, assim desfalecem em utopias e aspirações momentâneas. Mas Tiago permanece quedo sobre a sua cama. Tem cara magriça e braços longos, braços esses que entre-cruza de maneira leve e pensativa. Estão -11º graus lá fora. Mas Tiago parece não se importar com tal geada de Inverno e com uma súbita aragem que gela as portadas, levanta-se de uma assentada e caminha em direcção á janela do quarto. A luz que atravessa essa janela é inerte, mas no entanto serve de guia ao pequeno rapaz.

Puxa de um pequeno banco construído em madeira pelas mãos de seu pai e refastela-se ainda com ar dúbio e a sentir-se improfícuo. Sempre vivera dependente de tudo. Sempre tivera que justificar cada passo seu a sua mãe. Depois da escola, o trajecto era a casa, sem margem para erros nos horários e sem tempo para desvios aos quais a sua progenitora intitulava de "inúteis". Tiago desviava-se à hora do almoço e fugia como um pequeno rato de biblioteca para a sua segunda, e muitas vezes aclamada de primeira, casa. Aconchegava-se em romances boémios, em aventuras imprevistas, em dialectos intelectuais que o foram ajudando a crescer. Pessoa, Kant, Platão, Sófocles, Poe, Hemingway eram os seus padrastos tão amados.

No entanto, Tiago apenas conseguia saborear o ousado sabor da liberdade por curtos períodos de tempo. Só no asilo e seio da noite é que tinha a possibilidade de transcender os limites que lhe impunham, tinha oportunidade de se libertar daquela vida sedentária e rotineira à qual estava acorrentado. Sorrateiramente, levantou-se do banco e encostou a majestosa porta de madeira com pormenores que o pai tinha feito especialmente para o seu quarto. Com um mísero e quase invisível feixe de luz pálido, dava passos de cordeiro em direcção ao singular rectângulo que, emitia uma áurea que o ia envolvendo e embebecendo. Estavam -11+ graus lá fora mas Tiago parecia não se importar.

Tranquilamente, foi encostando o seu nariz empertigado pela curiosidade do que ali se passava à janela, que tinha tomado agora dimensões colossais. O seu rosto fragoso embatia contra os vidros verdadeiramente gelados pelos nevões do Marão, mas Tiago parecia não se importar. Mas o petiz queria transpor ainda mais esses limites. Agarrou com afinco "Até ao Fim" e com os delgados dedos corrompidos pelas unhas, descerrou a janela.

Um ar estranhamente gélido tentava extinguir o corpo fogoso do rapaz que se encontrava num estado de êxtase imperceptível. Colocou o banco contra a parede e, ao mesmo tempo que subia ia tirando as vestimentas até permanecer apenas de roupa interior. Subiu ainda mais e mais e mais e mais até que...




(quanto mais alta a subida, maior é a queda! Acorda Henrique, são horas!)

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