de vontade assolapada, queria estilhaçar a clarabóia e ir de embate ao alcatrão ligeiramente aguado por uma chuva ligeira de Abril. Queria brotar, mas era desprovido daquilo a que chamam raízes. Hirto, patenteava uma figura desproporcional, ali, deitado no solo húmido. Cabelos grisalhos, alvos, rosto fatigado e descaído, no entanto com duas peças vitais, enérgicas a que chamam olhos. Lábios ressequidos a pedir em sopro padecido em dor por algo que o acalenta-se. não podia valer-se de ninguém, todos num simulacro social o ignoravam e lá estava ele, refastelado sobre a borda do passeio com a sua barba desmedida, lembrando Zeus ou Poseidon, ou Ades, uma figura "mito-logicamente" imaginada.
Ludibriava o seu estômago, fintando a avidez de comer. Tinha um corpo íngreme, escarpado pelos ossos bem visíveis. As suas pernas assemelhavam-se a falésias intermináveis que facilmente se podiam percorrer com o olhar. Olhavam-no de nojo com uma pensada superioridade. Desfalecia em lágrimas e em segundos o seu pequeno grande coração estaria rombo, e rombo ficou..
Era já madrugada dentro, um delgado nevoeiro embalava a cidade, enquanto todas as feridas se retiravam em pousio. Estava desfeito e, os seus cacos eram facilmente adaptados a bifaces para quem lhes tentasse deitar mão. Reuniu (quase) todas as suas forças para se pôr de pé, apoiando-se nos seus punhos que se apoiavam por sua vez num pesar da índole. Era então visível a sua figura completa. Um pequeno gorro de lã vermelha no topo da cabeça, um curto e amarrotado cachecol encolhido pela chuva, uma gabardine a dar pelos tornozelos desgastados e umas botas de trabalho sem sola fixa com cor gasta e bolorenta.
Com ele, vagueava também um forte vento invernoso que era inábil para enregelar as gentes citadinas. Estava em mãos de uma dissimulada "mãe", que o acolhia naquela noite. Encontrava-se portanto sozinho, único no meio dos colossais arranha céus que o intimidavam por vezes com as suas enormes e estrondosas portadas em metal reluzente. Nunca tinha visto nada do género, tão "chique", como lhe chamaria. Cada passo o conduzia a uma incógnita de desterro. Desterro... desterro esse que sempre o acompanhara na sua vida mesquinha. Era "dono do seu nariz", por algumas horas, era "dono do seu nariz". Imaginava-se a transcender horizontes nunca antes cruzados e a ter o mundo em mãos durante aquela madrugada de Inverno.
Sentou-se no parque. Os baloiços assobiavam melodias tétricas, mas nem um único arrepio se apoderava dele. A roda, que durante o dia albergava crianças no início da sua inocência, agora, rangia de forma desenfreada e incontrolável. Os enormes carvalhos circundantes sopravam terrificamente plantados.
De súbito, uma saraivada de estilhaços.. "ninguém dá pela tua falta" (a não ser eu) !
Vivemos isolados numa redoma de vidro.
ReplyDeleteNum mundo louco, onde ninguém grita e sufocam a dor em silêncio mudo.
Os verdadeiros homens, que fogem ao mundo cruel, afogam-se no desespero da solidão, e na tentativa de contrariar a condição humana, acabam sós na borda de um passeio.
Mas, existe uma outra realidade. Alguns permanecem inertes na borda do passeio, porque se consideram inúteis, parasitas da sociedade, que sobrevivem de restos humanos e não mexem o seu corpo de forma a estimular as suas células cerebrais.
Uma imagem fragmentada de um dia comum, nas palavras absurdas e reais de um homem.